luminária klee, por maneco quinderé para lumini

bate-papo

cerâmica, traço e luz: maneco quinderé fala sobre a coleção klee, sua primeira colaboração com a lumini

11/08/2026


assinada por maneco quinderé para a lumini, a coleção klee tem sua origem em uma viagem do lighting designer a berlim, onde visitou o instituto bauhaus e se deparou com o universo de paul klee (1879–1940) – pintor suíço-alemão e professor da bauhaus, conhecido por unir abstração geométrica a uma linguagem pictórica lírica, construída a partir da exploração da linha, da cor e do ritmo visual. seu friso, seu traço e sua relação com a luminosidade se tornaram a referência central da coleção.

o lançamento reúne arandela, pendente e luminária de mesa em uma linguagem que une rigor formal e presença artesanal. o detalhe do recartilhado no metal – uma assinatura recorrente no design de maneco – percorre todas as peças da família, criando uma textura sutil que remete à produção dos anos 1930 e 40. é na cerâmica, porém, que a coleção encontra sua identidade mais singular: feita à mão, cada peça carrega as marcas do gesto humano, pequenas variações de forma e espessura que fazem de cada unidade algo único.

a escolha da cerâmica não foi casual. material de natureza essencialmente artesanal, em que a queima reduz, contrai e impõe suas próprias condições, ela exigiu do lighting designer uma pesquisa longa até chegar aos ceramistas certos, além de uma abertura para aceitar a imperfeição como parte do resultado. 

é também neste material que aparece a homenagem a paul klee: um friso fino demarca a cerâmica por meio de uma linha que pode ser azul, vermelha ou marrom, remetendo ao vocabulário plástico da bauhaus. o artista costumava dizer que "uma linha é um ponto que saiu para passear" – síntese de boa parte de sua obra, em que o desenho nasce como um gesto mínimo, quase involuntário, e ainda assim organiza toda a composição. no friso da cerâmica presente na luminária, esse princípio ganha forma física: a linha não decora a peça, ela a define, demarcando o limite entre o volume neutro do material e o restante do objeto.

iluminador de teatro, arquitetura, ópera e moda, maneco chegou ao design de luminárias não como destino, mas como extensão de um olhar que sempre soube ler a luz. muito antes de assinar uma peça para a lumini, já recorria aos produtos da marca para iluminar seus projetos de arquitetura, e foi nessa relação de confiança técnica e estética, construída ao longo de anos, que surgiu o convite para criar algo próprio. a proposta de trabalhar com cerâmica, material ainda inédito no repertório da lumini, foi o elemento que selou a parceria.

a seguir, maneco fala sobre trajetória, processo criativo e o que significa desenhar uma peça que quer chegar, com o tempo, à condição de objeto de família.

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você tem uma trajetória muito diversa. ao longo da carreira, você iluminou projetos cenográficos e projetos de arquitetura comercial e residencial, cada um com sua própria lógica de luz . como essa diversidade de experiências acumuladas ao longo dos anos se manifesta no modo como você pensa uma luminária? 

fui trabalhar em teatro com 17 anos, quase por acaso; era contrarregra de uma peça. quando a montagem mudou de teatro, o pessoal da iluminação se atrasou e, como eu já havia montado o cenário, pedi para ajudá-los. dois meses depois, era o primeiro assistente do iluminador daquela mesma peça. e, com 23 anos, já desenvolvia projetos de iluminação de forma independente.

a iluminação é uma ferramenta muito poderosa. ela pode destruir um projeto de arquitetura ou elevá-lo completamente. no teatro, já tive diretores que me pediam para esconder um ator, revelar um cenário, suprimir um ambiente inteiro. e é curioso que, diante de tudo isso, não exista uma escola de iluminação no brasil; cada um vai desenvolvendo internamente, a partir das próprias curiosidades, uma maneira de se apropriar dessa linguagem.

no meu caso, as artes plásticas foram o caminho. meu olhar se formou tentando entender como a luz funciona no trabalho do vermeer, como as cores operam no universo do david hockney, do dan flavin, do edward hopper. foi essa curiosidade que me levou a construir uma linguagem própria: o meu jeito de ver e fazer luz.

eu me considero uma pessoa que faz luz – luz para teatro, cinema, televisão, balé, ópera e arquitetura em geral. designer não é bem uma palavra que eu usaria para mim. mas tenho um prazer genuíno em desenhar luminárias, e, quando o faço, quero chegar a um lugar de emoção.


quero que as pessoas se sintam tocadas ao acender um abajur, e que aquela peça vá acumulando história dentro de uma família. não é raro receber no projeto o pedido de incorporar o “abajur da avó” a um ambiente novo. é exatamente isso que quero provocar quando desenho uma peça.

não sou uma pessoa que sai de casa todo dia para pensar ou desenhar uma peça. as peças vêm muito de uma conversa, de um material que cai nas minhas mãos. não é o processo normal de um designer, que senta na prancheta e cria uma peça toda semana, ou aprimora um desenho já existente. 

o meu processo é esporádico, quase um acaso. nessa questão da cerâmica, por exemplo, vi uma exposição e aquilo me inspirou. às vezes vejo uma tigela em cima de uma mesa – e aquilo, virado de cabeça para baixo, vira a base de uma luminária. se existe um jeito, um "modo maneco" de fazer, é esse: o acaso. 

mas acho que tudo também está dentro de mim – foi construído ao longo de 45 anos de carreira. do teatro à arquitetura residencial, essas experiências foram se sobrepondo, formando essa construção. tudo está relacionado, tudo está junto, intrínseco entre mim e o processo de criação – o que está dentro de mim, a emoção. se estou passando por um momento muito alegre, crio uma peça, faço uma luz mais alegre; se estou mais triste, faço diferente. 

a luz, a iluminação, minha profissão, exige emoção. as emoções que estou vivendo são colocadas naquele projeto do momento.

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a coleção se chama klee – uma referência direta ao artista paul klee, do bauhaus. como essa conexão surgiu e o que ela representa para a coleção?

alguns anos atrás, fui convidado a desenhar uma peça para a exposição brazilian furniture design, em berlim – minha primeira viagem à cidade. lá, fui inevitavelmente ao instituto bauhaus. entendi o projeto em sua integridade, no seu modo de pensar: uma estética espartana, minimalista, essencialmente funcional. 

na mesma viagem, uma exposição de cerâmica na ilha dos museus me provocou de outra maneira. a partir do que vi nessa exposição, somada ao contato com o bauhaus, foi que passei a trabalhar com as duas linguagens juntas, mesmo nunca tendo feito nada em cerâmica antes.

acho que a cerâmica talvez seja a primeira manifestação do design: o homem criando algo para colher água, para guardar vinho, enfim, o gesto mais primitivo de dar forma a um material para resolver uma necessidade.


voltei com uma vontade clara de trabalhar com isso. o nome klee veio naturalmente. paul klee faz parte do grupo de artistas que atravessou o movimento alemão do pré-guerra, e tem uma relação direta com o meu interesse pelas artes plásticas e pela percepção da luz através delas. antes de tudo, eu gosto de pintura. klee trabalhou muito ao lado do kandinsky, tem uma força pictórica muito grande, uma questão de linha muito marcante, uma influência musical e também essa busca pelo minimalismo, pelo essencial, pelo fundamental. acho que foi daí que nasceu o nome da linha de luminárias: dessa relação com a cor, com a linha, com o sentido pictórico da obra dele.

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a cerâmica é um material incomum para luminárias – inclusive, inédito no portfólio da lumini. por que essa escolha, e como se deu o processo de desenvolvimento das peças?

quando se fala em luminária de cerâmica, a referência imediata costuma ser o balizador de jardim ou a cerâmica ‘furadinha’ com uma lâmpada dentro – soluções simples, muito associadas a um certo artesanato regional. queria me distanciar desse olhar e encontrar um ceramista contemporâneo, alguém que trabalhasse o material com menos reverência ao ancestral e mais diálogo com o design atual. 

o que torna a cerâmica interessante – e desafiadora – é precisamente sua resistência à padronização. não é uma máquina que repuxa a peça: é um homem que a faz, com as mãos, e o material impõe suas próprias condições. uma peça projetada para 60 centímetros sai da queima com 3 ou 4 centímetros a menos. os tubos nunca ficam todos perfeitamente alinhados, vai ter sempre um ligeiramente fora do eixo. mas é exatamente aí que está o valor: as peças ficam com a marca do gesto humano, e as pessoas gostam disso, de ter em casa algo que carrega uma imperfeição que só aquela unidade tem.

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a parceria com a lumini tem uma história longa antes de se concretizar. como ela aconteceu e de que forma o processo colaborativo moldou o resultado da coleção?

a relação com a lumini existia há anos. acho que essa questão de usar o equipamento da lumini há muito tempo vem de uma admiração real pelo produto que a marca produz. desde que comecei na arquitetura e passei a trabalhar com projetos, a lumini sempre me deu soluções para aquilo que eu desejava. a gente vem falando sobre desenhar uma peça para a lumini há alguns anos, mas acredito muito nessa questão de que chegou a hora certa – as coisas andaram, o universo conspirou, era o momento. 

fui convidado para discutir uma colaboração, levei algumas ideias, pensando em latão, em outros materiais. eduardo gutfreund (diretor da lumini) e fernando prado (designer e diretor criativo da lumini) propuseram a cerâmica, já que a lumini nunca havia trabalhado com o material, mas sabiam que eu já tinha experiência com ela em outras ocasiões.

o processo foi muito fluido. as propostas técnicas da lumini se encaixavam naturalmente às intenções do projeto. há dentro da lumini um grande designer, que é o fernando prado, e essa interlocução foi fundamental para que o desenvolvimento chegasse onde chegou.

a troca de ideias foi fundamental para esse processo. quando fiz uma peça em cerâmica, há muito tempo, precisei conduzir sozinho todo o processo de adaptação, industrialização e fabricação – entender como a peça se faz, como não se faz. a lumini é uma empresa com uma expertise gigantesca nessa questão. 

o fernando prado é um profissional que entende profundamente tanto o processo de criação quanto o de produção e fabricação. eu trazia proposições dentro da minha percepção sobre a peça e ele trazia soluções, traduzia isso para dentro do processo que ocorre na produção da empresa. essa união entre os dois processos se deu de forma muito fluida. aceitei com prazer, admirando o trabalho da equipe, do fernando, do eduardo e do próprio severino, responsável pela produção. assim, fomos acertando os detalhes juntos. foi um trabalho muito bem ajustado entre a gente.

a palavra que melhor define a relação com a lumini é prazer. não há imposição ou atrito. a lumini tem uma expertise muito consolidada, sabe exatamente como trabalhar o encaixe, o recartilhado, a junção entre cerâmica e metal. isso torna o processo todo muito mais preciso.


existe agora uma outra relação entre mim e a lumini. é como um casamento – entre o escritório maneco quinderé e associados e a lumini, e entre mim, como designer, e a marca. estou mais ligado do que nunca à lumini e hoje faço parte de uma das empresas mais importantes de iluminação do brasil, com uma fábrica muito bem equipada e uma expertise sólida nessa área.

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o recartilhado aparece quase como uma assinatura sua nas peças. de onde vem esse detalhe e o que ele representa dentro do seu universo de design?

o recartilhado é uma marca que fui incorporando ao meu design ao longo do tempo e que hoje percorre toda a minha produção. o processo é simples: a peça passa por uma máquina que imprime um desenho no metal, criando uma textura que, ao mesmo tempo, qualifica o acabamento e estabelece uma referência visual ao design das décadas de 1930 e 40, quando esse tipo de detalhe era recorrente. na coleção klee, o recartilhado aparece no lustre, nas luminárias de mesa e no pendente – sempre de forma discreta, quase como uma assinatura que só se revela de perto.

o que você espera que as pessoas sintam ao ter uma peça klee em casa?

espero que as pessoas percebam que a klee carrega uma artesanalidade que vai além do acabamento. uma peça italiana ou alemã tem aquele corte perfeito, uma precisão industrial impecável. a klee tem a cerâmica e tem uma coisa humana. é essa dimensão que quero que chegue às pessoas, que elas sintam esse prazer ao ter a peça em casa.

há também algo mais difícil de explicar sobre o processo criativo. tudo o que fazemos vai se sedimentando – cada peça de teatro, cada projeto de arquitetura, cada material que fica meses em cima da mesa antes de revelar o que pode ser. as luminárias que desenho surgem desse acúmulo. se alguém me perguntar de onde vem uma ideia, a resposta honesta é que ela já estava aqui, dentro de tudo que fui fazendo e guardando ao longo do tempo.

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